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Texto
e textualidade*
O texto (do latim textum:
tecido) é uma unidade básica de organização
e transmissão de idéias, conceitos e
informações de modo geral. Em sentido
amplo, uma escultura, um quadro, um símbolo,
um sinal de trânsito, uma foto, um filme, uma
novela de televisão também são
formas textuais. Tal como o texto escrito, todos esses
objetos geram um todo de sentido, propriedade a partir
da qual iniciaremos nossa reflexão sobre nosso
objeto de estudo.
Para tanto, será
necessário definir algumas características
do objeto - o texto -, salientando as implicações
de cada uma delas, a fim de se aprofundar a análise
e delimitar o ponto de partida.
a)
A primeira dessas características é,
como referimos, a do texto como um todo gerador de
sentido, uma totalidade. Um fragmento, uma parte (frase,
palavra) não possuem autonomia, não
podem ser tomados isoladamente, na medida em que cada
parte liga-se ao todo. Fora do contexto (o texto como
um todo), uma determinada parte poderá ter
seu sentido original alterado, impedindo a depreensão
do que de fato se desejou transmitir - o real significado
do texto como expressão do autor. Há
ainda uma propriedade básica na organização
dos textos, que é a coesão; além
dessa, há outra, identificada com os mecanismos
de constituição de sentidos, que é
a coerência.
b)
Por mais neutro que pretenda ser - como as instruções
para uso de determinado equipamento ou uma notícia
de jornal -, um texto sempre revela a perspectiva
(a visão de mundo) que o autor constrói
da realidade. Vale dizer que os textos são
dotados de certo grau de intencionalidade, fenômeno
mais notável em textos argumentativos;
c)
A visão de mundo que está na base do
discurso de um autor pode ser chamada de ideologia,
o processo de produção de significados,
signos e valores da vida social. O texto traz consigo,
de modo mais ou menos evidente, valores identificados
com certa cultura e formação histórica
e social na medida em que o autor é um ator
social que comunga com esses valores;
d)
Pelo fato de ser um produto de uma época e
de um lugar específicos, há no texto
as marcas desse tempo e espaço. Por isso, nenhum
texto é um objeto inteiramente autônomo,
há sempre um diálogo estabelecido com
outros textos e com o contexto. O texto, ainda que
implicitamente, incorpora diferentes perspectivas
a respeito de uma mesma questão. O que se tem
é uma inter-relação entre textos
que tratam do mesmo assunto, ou de assuntos semelhantes,
com, eventualmente, abordagens diferentes. A esse
respeito, Eni Orlandi afirma o seguinte: "o sentido
está sempre no viés. Ou seja, para se
compreender um discurso é importante se perguntar:
o que ele não está querendo dizer ao
dizer isto? Ou: o que ele não está falando,
quando está falando disso?" Por exemplo,
quando se defende a prática do aborto, não
se reconhece a existência da vida, em sentido
mais pleno, no útero, bem como o poder do Estado
em regular o direito ao corpo.
Vejamos essas características
no poema abaixo:
Provérbio
revisto
Newton de Lucca
A voz
do povo
é a voz de Deus...
Que povo?
Que Deus?
O que
beijou Stálin?
O que delirou com Hitler?
Ou o que soltou Barrabás?
(Será que Deus já não
teria se
enforcado
em suas próprias cordas vocais?)
Totalidade
Se lêssemos apenas
os dois primeiros versos do poema, travaríamos
contato tão-somente com o provérbio,
portanto a revisão proposta pelo título
não se completaria. Somente por esse motivo
já devemos considerar o texto em sua totalidade.
O mesmo aconteceria se isolássemos os dois
últimos versos do restante do poema. Qual a
interpretação que poderia ser-lhes dada?
Poderíamos, por exemplo, entender que o autor
estivesse decretando a morte de Deus e, conseqüentemente,
propondo uma visão ateísta do mundo,
o que não é o caso. O ponto, portanto,
é determinar a organização do
poema, para daí depreender o sentido produzido.
Diálogo com
outros textos e com o contexto
Ao provérbio,
sucedem-se seis questões. Para que essas indagações
sejam resolvidas, é preciso determinar com
quais textos este poema dialoga. Inicialmente, há
o desejo, expresso no título, de revisão
do provérbio apresentado nos dois primeiros
versos. Esse provérbio afirma a supremacia
dos desígnios do povo, visto que há
uma identidade entre este e Deus. No entanto, a esse
falso axioma, o eu-lírico opõe uma série
de situações factuais, verificáveis
na História, as quais, em princípio,
contestariam a pretensa confirmação
divina. Melhor explicando, além de estabelecer
uma reflexão sobre o provérbio, o poema
traz para seu interior um fato bíblico (o povo
teria pedido a libertação de Barrabás
no lugar de Jesus Cristo, o que, pela lógica
do provérbio, teria tido o aval de Deus), além
de dois fatos da História contemporânea
(a glorificação de Hitler e de Stálin,
líderes alemão e soviético, respectivamente,
que tiveram apoio popular e que foram responsáveis
pela morte de milhões de pessoas, os quais,
mais uma vez, portanto, pela lógica do provérbio,
teriam tido o aval divino). É nesse sentido
que se estabelece um diálogo com outros textos
(Bíblia e provérbio) e com contextos
específicos (a Europa nas décadas de
30 e 40). Porém, se o leitor desconhece quem
foram Hitler, Stálin ou Barrabás, a
leitura do poema como um objeto de revisão
de determinado conteúdo histórico não
se complementa. É necessário, pois,
conhecer o referente (o contexto) que fundamenta o
enunciado.
Perspectiva e ideologia
Da leitura atenta do
poema, pode-se chegar ainda à perspectiva do
autor e qual o sistema de idéias que norteia
a construção de seu texto. Ora, ao propor
uma série de perguntas, o autor pretende revelar
ou a incoerência de Deus ou a não-validade
da visão de mundo que o provérbio encerra.
Assim, tem-se a perspectiva de alguém contrário
às pretensas verdades absolutas que nos são
colocadas, seja via provérbios, seja através
de outros enunciados moralistas.
*Extraído
do livro de Luiz Roberto Dias de Melo & Celso
Leopoldo Pagnan. Prática de texto: leitura
e redação. W3 Editora, 2003.
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