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Bocage: poeta de dois tempos

Celso L. Pagnan


Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 -1805), ao lado de Camões, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, constitui-se num dos principais nomes da literatura portuguesa. Alguns de seus sonetos procuram justamente evocar o autor de Os Lusíadas, pois, de acordo com Bocage, ambos destinos apresentavam muita coisa em comum:

Camões, grande Camões,
quão semelhante
Acho teu fado ao meu,
quando os cotejo!

A vida do autor dos Sonetos, assim como a de Camões, é marcada pelo espírito aventureiro, incluindo a experiência militar e viagens por todo o mundo. Bocage foi também boêmio e libertino; o que mais se ressalta em sua poesia é o veio satírico e sarcástico, sobretudo a partir do retomo à Lisboa em 1790, quando toma maior contato com as idéias liberais propostas pela Revolução Francesa (1789); além disso, é quando adere à Nova Arcádia, assumindo o nome poético de Elmano Sadino.

Esse espírito atrevido, que procura a tudo satirizar, sobretudo o autoritarismo da Igreja e do Governo monárquico, acaba por levá-Io à prisão em um mosteiro para ser educado segundo a ideologia totalitária, que tanto combatia:

Sanhudo, inexorável Despotismo,
Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,
Que em mil quadros horríficos te enlevas,
Obra da Iniqüidade, e do Ateísmo:

Liberto da prisão, continua a escrever; porém, percebe-se em sua poesia um certo desalento com relação à vida, que muito o aproxima do Romantismo do século XIX:

Já Bocage não sou... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura

Assim, o poeta tanto segue o Arcadismo programático, com uma poesia bucólica com recorrências à mitologia greco-romana e presença constante do racionalismo de um século marcado pela filosofia iluminista:

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo, a sorrir-se! Olha, não sentes.
Os Zéfiros brincar por entre as flores?


como também adota uma perspectiva pré-romântica, caracterizada por certo subjetivismo, em alguns sonetos, e um tédio que se apresenta em meio a visões tenebrosas da vida, isto devido àquele desejo iluminista de tudo conhecer e entender:

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!...Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!

Há que se ressaltar ainda a poesia lírica dedicada à mulher amada, cujo nome poético é Gertrúria, cantada e evocada sobretudo quando o poeta se encontrava em viagem:

Sonhei que nos meus braços inclinado
Teu rosto encantador, Gertrúria, via;
Que mil ávidos beijos me sofria
Teu níveo colo, para os mais sagrado.

Outra tendência nos sonetos de Bocage é o desejo da fama, a qual de fato alcançou ainda em vida, fama que deveria perdurar para todo o sempre, para além da própria existência, ultrapassando o tempo e tornando-se digna de nota em qualquer época, de acordo com estes versos:

Ave da morte, que piando agouros
Tinges meus ares de funéreo luto!
Ave de morte (que em teus ais a escuto)
Meus dias murchará, mas não meus louros.

Ao que parece, o poeta tinha razão.

 

 

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