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Simbolismo
As razões do aparecimento
de mais uma importante escola literária no
final do século XIX são as mesmas que
deram origem às outras três (Realismo,
Naturalismo e Parnasianismo). Porém, esta procurou
ser um movimento de contracultura, isto é o
simbolismo procurou ser uma alternativa para a presença
e influência do cientificismo na literatura.
Neste sentido, tenta recuperar o subjetivismo e o
espiritualismo românticos. Não desprezou,
contudo, o ideário estético do parnasianismo,
quer dizer, adotou a preocupação com
a forma do poema, mesmo que às vezes fosse
uma forma mais livre que a do poema parnasiano.
Em essência, a
escola simbolista tem como objetivo negar o racionalismo
burguês e sua estrutura sócio-econômica,
colocando como alternativa, para uma real compreensão
do Universo, a analogia sensorial entre todas as coisas.
A idéia, portanto, é estabelecer uma
correspondência entre o mundo abstrato (das
sensações espirituais) e o mundo concreto
(das coisas, da natureza), tendo como uma espécie
de conexão a linguagem poética. Assim
o poeta seria elevado também a uma espécie
de sacerdote, isto é, alguém iniciado
que iria decifrar os símbolos do universo,
sugerindo-os mais do que explicando-os. Daí
o caráter meio hermético da poesia simbolista.
A escola tem sua origem
justamente num soneto chamado "Correspondances",
escrito pelo francês Charles Baudelaire (1821-1867):
A natureza
é templo em que vivas pilastras
Deixam sair às obscuras palavras;
O homem o percorre através das florestas de
símbolos
Que o observam com olhares familiares.
Como
longos ecos eu de longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem. (...)
Esta sugestão
simbolista é essencial na diferença
com o parnasianismo e com as outras escolas materialistas.
Enquanto estas centralizam sua preocupação
no objetivo a ser descrito, aquela valoriza a relação
entre sujeito e objeto visando tingir a totalidade
de relação do homem com o mundo espiritual
e material.
À época,
o Simbolismo foi desprezado pela literatura considerada
oficial, e de certa forma foi uma tentativa frustrada;
porém, abriu o campo para as pesquisas do inconsciente
e para as poéticas modernistas, como o expressionismo
e o surrealismo, além de representar um alerta
que se fazia à nascente e crescente sociedade
materialista.
No Brasil, onde o Parnasianismo
dominava o cenário poético, a estética
simbolista encontrou resistências, mas animou
a criação de obras inovadoras. Desde
o final da década de 1880 as obras de simbolistas
franceses, entre eles Baudelaire e Mallarmé,
e portugueses, como Antonio Nobre e Camilo Pessanha,
vinham influenciando grupos como aquele que se formou
em torno da Folha Popular, no Rio, liderado por Cruz
e Souza e integrado por Emiliano Perneta, B. Lopes
e Oscar Rosas. Mas foi com a publicação,
em 1893, de Missal, livro de poemas em prosa, e Broquéis,
poemas em versos, ambos de Cruz e Souza, que principiou
de fato o movimento simbolista no país - embora
a importância desses livros e do próprio
movimento só tenha sido reconhecida bem mais
tarde, com as vanguardas modernistas .
A poesia de Cruz e Souza
segue bem a linha temática simbolista, indo
do conflito matéria/espírito à
busca de uma integração cósmica,
à idéia da totalidade. Quanto ao aspecto
formal, há a predominância e substantivos
e o uso da sinestesia, ou seja, a mistura das sensações
e dos sentidos humanos, mais uma vez com idéias
de se atingir a totalidade, além, é
claro, da preocupação com a sonoridade
das palavras.
Cristais
Mais
claro e fino do que as finas pratas
O som da tua voz deliciava...
Na dolência velada das sonatas
Como um perfume a tudo perfumava.
Era um
som feito luz, eram volatas
Em lânguida espiral que iluminava,
Brancas sonoridades de cascatas...
Tanta harmonia melancolizava.
Filtros
sutis de melodias, de ondas
De cantos voluptuosos como rondas
De silfos leves, sensuais, lascivos...
Como
que anseios invisíveis, mudos,
Da brancura das sedas e veludos,
Das virgindades, dos pudores vivos.
A poesia de Alphonsus
de Guimaraens, autor de Dona Mística, Setenário
das Dores de Nossa Senhora, entre outros livros, se
restringe praticamente à problemática
da morte, influenciada talvez pela morte da prima
Contanza, ainda jovem. De qualquer modo, o talento
do poeta na exploração do tema se revela
na atmosfera mística que cria, colocando-o
entre os principais representantes da estética
simbolista.
Cisnes brancos
Ó
cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da montanha onde morre a tarde.
O cisnes brancos, dolorida
Minh'alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.
Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.
Venham as aves agoureiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh'alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob as asas,
A alma cheia de ladainhas.
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago de alva plumagem!
Minh'alma morre aos solavancos,
Nesta medonha carruagem...
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