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Um malandro
no tempo do Rei
Celso
L. Pagnan
Quando se fala em Memórias
de um sargento de milícias, romance originalmente
publicado em folhetim entre 1852 e 1853 por Manuel
Antonio de Almeida, a primeira idéia que fazemos
é a de um militar que narra sua vida, evidentemente,
em primeira pessoa, entremeada de atos de heroísmos
no exercício do trabalho.
Logo
nas páginas iniciais, porém, percebe-se
que não é isto que ocorre. Primeiro,
porque o livro é narrado em terceira pessoa,
depois porque a origem daquele que possivelmente será
o tal do sargento não tem nada de nobre ou
de heróico.
Leonardinho, o protagonista
da história, nasce de um love-affaire entre
um meirinho, Leonardo Pataca e uma quitandeira, Maria
da Hortaliça, e batizado pela própria
parteira e por um barbeiro, vizinho dos pais de Leonardinho.
E como este havia nascido de uma pisadela e
de um beliscão, foi igualmente posto
para fora da família aos sete anos, com um
ponta-pé devido à separação
dos pais, que não haviam se casado de fato.
Por isto, acabou sendo criado pelos padrinhos.
Desse momento em diante,
Leonardo filho vai viver as mais diferentes situações
até se tornar sargento, único meio de
se livrar da prisão e casar-se com seu primeiro
amor, Luisinha. Em meio a tais situações,
o narrador vai fazendo um levantamento dos costumes
e ambientes da sociedade carioca. Reside neste ponto
a principal diferença entre o romance de Manuel
Antonio de Almeida e os demais romances publicados
durante o Romantismo brasileiro. Enquanto José
de Alencar[1] e Joaquim Manuel de Macedo, dois dos
principais romancistas do período, tematizavam
a classe dominante, e as pessoas a ela agregadas,
o livro de Manuel Antonio se volta para os homens
livres, classe intermediária entre os negros
escravos e a alta burguesia ou os nobres.
Além disso, não
há no livro situações idealizantes
(a não ser no final), tão ao gosto romântico,
como, por exemplo, em O guarani, e sim um realismo
preocupado em revelar a dinâmica da sociedade
brasileira.
O enredo se inicia à
maneira das Histórias da Carochinha:
Era no tempo do rei...[D. João VI];
seguindo esta linha, como bem assinalou o crítico
Antonio Candido[2], podemos ver nos padrinhos do menino
espécies de fadas que sempre estão querendo
que o herói siga uma determinada trajetória,
um determinado destino; por outro lado, a vizinha
deles representaria a bruxa má, ou algo similar,
a que vai procurar agourar o destino do menino, dizendo
que nunca será nada que preste, de um ponto
de vista social e profissional.
São, nesse sentido,
personagens arquetípicos, ou sejam, personagens
representativos da cultura. Isto se reforça
quando se percebe que boa parte dos personagens é
identificada pela profissão apenas, e não
pelo nome, configurando uma visão de coletividade,
distante do individualismo própria de uma perspectiva
puramente burguesa.Há, sob outra ótica,
uma busca pelo herói tipicamente brasileiro,
ou anti-herói, que se revela sem caráter[3].
Por isso, o livro é o prenúncio de um
tipo de literatura que terá seu ponto culminante
na figura de Macunaíma, do livro homônimo
escrito pelo modernista Mário de Andrade.
Assim, Leonardo se caracteriza
pela malandragem, mas não apenas ele, e sim,
de modo ou de outra, diversos personagens do livro.
Há, no romance, uma espécie de movimento
dialético, que oscila entre a ordem e a desordem.
Isto é, o bem e o mal são relativizados
em uma sociedade onde o que é o certo e o errado
são separados por uma linha tênue.
Da mesma forma que Leonardo
vai do amor livre com Vidinha, uma mulata, para o
casamento com Luisinha, os demais personagens, que
poderiam manter a ordem burguesa, são flagrados
em situações consideradas, por essa
mesma ordem, como imorais. Este é o caso do
padre, pego com a cigana, ou o do Major Vidigal, responsável
pela lei e segurança do Rio de Janeiro, surpreendido
por três mulheres em trajes íntimos;
mesmo tendo se vestido, às pressas, volta com
calças caseiras e tamancos, o que simboliza
a quebra da ordem que deveria manter.
Apesar de tudo, o livro
se insere na tradição romântica,
com o esperado final feliz: o casamento de Leonardo
e a obtenção do posto de sargento (justificando
o título do livro), o que o faz entrar na esfera
da ordem institucionalizada.
Notas:
[1] Alencar escreveu um livro, O garatuja, que se
assemelha em partes ao Memórias de um sargento
de milícias, pois Ivo de Val, o garatuja, é
exemplo de malandro e que, para se livrar de uma vida
marginal, casa-se e se torna funcionário de
cartório.
[2] Cf. o ensaio Dialética
da malandragem. A linha argumentativa do presente
texto segue a desse ensaio.
[3] Entenda-se caráter
como traço definidor de raça ou povo.
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