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Arthur
Rimbaud
Celso L. Pagnan
Arthur Rimbaud foi uma
dessas pessoas que quando menos se espera já
partiram. De espírito inquieto, Rimbaud foi
um meteoro que impulsionou, em pouco tempo, espíritos
ansiosos por uma nova poética e mexeu com outros
tantos acomodados em seus tronos, conservados pela
tradição.
Não só
pela poesia esse meteoro passou, mas também
pela política e pela moral, por assim dizer.
Depois de sua viagem pela poesia, partiu em direção
ao Oriente e à África em aventuras diversas,
engajando-se em exércitos coloniais. Por fim,
há mais de 110, fez sua última viagem.
Amputado de uma perna devido a um tumor, o poeta francês
morreu em 1891, no mês de novembro em Marseille.
Antes, porém, já enfermo, reaproximou-se
da família e, segundo a irmã, de Deus.
Nascido em 1854, na cidade
francesa de Charleville, Rimbaud, desde criança,
demonstrava tendências à fuga e a viagens.
Adolescente, revoltou-se contra o seio familiar, as
convenções sociais, a religião
e a moral.
Georges Izambard, seu
professor de retórico, foi o primeiro a ver
nele vocação poética. Em 1870,
escreveu seus primeiros ensaios poéticos, nos
quais já era possível observar originalidade
e profundo senso crítico da realidade.
No período de
1870 a 1871, a França encontra-se em guerra
contra a Prússia, da qual sai derrotada, motivando
a queda do 2º Império e a ascensão
da 3ª República. Rimbaud, que atacava
veementemente Napoleão III e todo o conformismo
burguês, aplaude tais acontecimentos. No entanto,
o poeta era apenas mais um a gritar contra os desmandos
do Império.
Paris era a ponte para
se chegar aos meios literários e se tornar
conhecido. O poeta tentara ir à Cidade Luz
seguindo seu espírito aventureiro peculiar,
viajando sem passagem e sem permissão familiar.
Seu professor, Georges Izambard, é quem vai
buscá-lo. Em 1871, Rimbaud parte novamente
para Paris, onde conhece Paul Verlaine, que, juntamente
com outro poeta, Sthéphane Mallarmé,
era um dos poetas mais conhecidos da época.
No ano seguinte, Riambaud
e Verlaine, que se tornaram amantes, partem em busca
da liberdade em viagens à Bélgica e
à Inglaterra. No entanto, Verlaine, em um acesso
de raiva, dispara dois tiros contra o jovem poeta.
Depois desse acontecimento, os dois se vêem
apenas esporadicamente. Após 1875, deixam de
se encontrar, e Verlaine, convertido ao cristianismo,
retorna à família. Rimbaud abandona
de vez a poesia e parte em descoberta do mundo.
Arthur Rimbaud publicou,
em vida, apenas uma obra, Une saison en enfer (Uma
temporada no inferno), em 1873. Porém, escreveu
ainda outras duas: Poésies (1871) e Illuminations
(1873). Nesses dois livros, verifica-se uma aproximação
sinestésica entre as palavras, os sons, as
cores e os cheiros. Trata-se de uma característica
marcante do Simbolismo, cujo prenúncio se deu
com Charles Baudelaire em As flores do mal.
Rimbaud pretendeu compor
um novo universo através da sua poesia. Para
tanto não mediu esforços, indo a lugares
os mais indesejáveis, como se verifica nesse
trecho:
Queremos
que o fogo nos queime o cérebro
Imergir no abismo, no inferno ou no céu, o
que importa?
Ao fundo do desconhecido para encontrar o novo!
Suas atitudes se caracterizam
por uma revisão do mundo: da moral judaico-cristã
e da sociedade burguesa, capitalista. Tal objetivo
é flagrante, por exemplo, em um poema como
"Vogais" (Iluminações), no
qual estabelece uma relação entre as
cores, as vogais e os símbolos do Universo:
A negro,
E branco, I vermelho, U verde, O azul: vogais
O A representaria a existência
em uma nova ordem; o E a água, sem a qual não
pode haver vida; o I representa o sexo; o U a vida
bucólica e o retorno à natureza; e O
o espaço celeste, o além-Terra. É
interessante assinalar que Rimbaud abandona, até
certo ponto, toda essa fulguração destruidora
e recriadora em Uma temporada no inferno, ainda que
permaneça a idéia de transformar a linguagem
literária, conferindo-lhe uma simbologia perdida
devido ao materialismo capitalista. Eis uma aspecto
da importância do legado de Rimbaud, que influenciou
toda uma geração, incluindo o Simbolismo
no Brasil, o Surrealismo de André Breton e
também músicos como Jim Morrison, do
extinto grupo de rock The Doors.
* Publicado originalmente em Folha de Londrina, Caderno
2, 29 set. 1991.
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