Redacional: livraria e editora.
Publicação e venda de livros.
Resumos e resenhas, artigos e análises.
Tudo, aqui, onde estiver.
Artigos e resenhas:
análise de livros.
Literatura:
As principais escolas literárias.
Redação:
Dicas para escrever. Temas.
Leitura:
Aqui as leituras obrigatórias para o vestibular.
Biografias: A vida de escritores e suas obras.
Resumos: Leia resumo de várias obras literárias.
Fale conosco: envie seus textos, dúvidas e comentários.

Artigos e resenhas


Códigos e segredos

Manuel Bandeira

Memórias de um sargento de milícias

Macunaíma

A cidade e as serras

Memorial do Convento

Sonetos, de Bocage

Antero de Quental

Dossiê Adão e Eva
 
Publicidade

 

 

Antero de Quental

Celso L. Pagnan

O final do século XIX, pode-se dizer, ficou marcado por anseios de mudança, fosse no campo social, político e econômico, a partir das críticas formuladas pelas teorias marxistas ou proudhonistas, que inspiraram a Revolução Russa em 1917, fosse no campo artístico, como as correntes e escolas literárias que suplantaram, há algum tempo, o romantismo, como o realismo e também o simbolismo. Particularmente esta última foi a base de diversos movimentos que eclodiram nas três décadas iniciais do século XX.

Diversos homens seguiram um campo ou outro; outros tantos se deixaram guiar por ambos, ou seja, ficaram marcados por ideais de transformação sócio-econômica e artísticos. No caso da arte, ou seguiram o naturalismo, ou o parnasianismo, ou o simbolismo ou ainda o realismo. Caso de Antero de Quental, homem guiado pela “razão, irmã do Amor e da Justiça”, propenso a fazer de Portugal o primeiro país comunista do mundo e a acabar com o romantismo de Antonio Feliciano de Castilho e seus seguidores.

Quental nasceu em 1842, em Açores. Terminados seus estudos primários, mudou-se para Coimbra, e se tornaria famoso pelas lutas e brigas que travou com o reitor da Universidade local, onde se graduou em Direito em 1864, porém jamais exerceu a advocacia ou qualquer profissão jurídica. Preferiu a carreira literária e a luta política.

Aos 19 anos, em 1861, lançou seu primeiro livro, contendo 21 sonetos, o que logo chamou a atenção da crítica. Mas é em 1865, com Odes Modernas, que alcança notoriedade e o coloca de frente ao famoso poeta Antonio de Castilho.

Castilho, em Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, escreve um posfácio no qual ataca o grupo de jovens de Coimbra, encabeçado pelo “Príncipe da Mocidade”, conforme Eça de Queirós chamava a Quental. O jovem poeta, em resposta, escreve uma carta, intitulada “Bom senso e bom gosto”. Está formada uma polêmica que se tornaria conhecida como a Questão Coimbrã.

No ano seguinte, vai a Paris tomar contato com movimentos sociais e trabalhistas. Lá, arruma emprego de tipógrafo e aprofunda seus estudos a respeito das teorias de Karl Marx e Proudhon. Ao retornar a Portugal, funda a “Associação Internacional dos Trabalhadores”. Parte, em 1869, aos EUA em busca de novas experiências para fundamentar seus ideais socialistas.

Antero de Quental, juntamente com Eça de Queirós, Oliveira Martins, Teófilo Braga, entre outros, promove, em maio de 1871, Conferências sobre temática variada, envolvendo literatura, filosofia, economia, no Casino de Lisboa. O governo manda, em 26 de Junho, encerrar as Conferências, alegando que constituem uma ofensa à religião e às instituições do Estado.

Em 1874, Quental adoece o que o faz rever alguns valores, entre eles a existência de Deus. Aproxima-se da metafísica. O pessimismo schopenhaueriano e o Nirvana budista apascentam seu espírito:

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração

(Transcendentalismo)

Quental escreveu quatro obras poéticas:

Sonetos
Odes Modernas
Primaveras românticas
Raios de Extinta Luz

Nas duas primeiras, definem-se todas as características de seu gênio. Em Odes Modernas, ataca “a classe vampirizante”, usando uma expressão do crítico português Fidelino de Figueiredo, a classe corruptora de toda sociedade moderna: a burguesia, que, engajada nos ideais da Liberté, egalité e fraternité, chegou ao poder com ajuda popular, mas esqueceu-se dessa ajuda. O poeta português participava de tal visão e levantou bandeira pela revolução socialista:

Ah! Via dolorosa!
Onde uma lei terrível nos dominas!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para luz do dia!

Critica ainda o clericalismo e os dogmas religiosos; apesar de algum misticismo, revela-se ateu e anarquista. Empresta às Odes Modernas toda uma filosofia que ele sempre desejou compilar em prosa, mas não o fez. Em “À história”, por exemplo, há uma síntese da trajetória humana e um questionamento do porvir do destino do homem:

As águias do rochedo, e a flor, e os ramos,
E a noite escura, e as luzes da Alvorada,
Perguntam que destinos nos consomem...
E os astros dizem – onde via o homem?

Nos Sonetos, revela grande qualidade e fulguração poética. Seus sonetos são uns dos mais perfeitos da língua portuguesa, comparáveis aos de Camões e de Bocage, na expressão e no conteúdo. Utilizou-se do verso decassílabo com grande maestria, e fugiu totalmente à temática comum e banal; apesar de alguns abordarem o amor platônico, procurou discutir a existência ou não de Deus e questões de ordem social e política. Foram escritos entre 1860 e 884, totalizando 109.

Em 1874, adoece e vê a morte aproximar-se. Sua poesia retrata o desalento de viver. Por isso mesmo, passa a lê com mais freqüência Arthur Shopenhauer, cuja filosofia parte do princípio de que a vida é ação, sinônimo da vontade. Sem vontade não pode haver vida, para a qual é necessário esforço. Esforço é dor. Dor é sofrimento. Aniquilando-se a vontade, aniquila-se a dor e o sofrimento. No “Elogio da Morte”, o poeta chega à seguinte conclusão:

Talvez seja pecado procurar-te,
Mas não sonhar contigo, adorar-te,
Não-ser, que és os Ser único, absoluto.

Em outro poema afirma: “Só males são reais, só dor existe”.

Às vezes, chega a comparar sua vida à de Cristo:

Na capela, perdida entre a folhagem,
O Cristo lá no fundo agonizava.
Oh! Como inteiramente se casava
Com minha dor a dor daquela imagem.

Em 1886 são publicados os Sonetos Completos, coligidos e prefaciados por Oliveira Martins. Antero evolui agora de mais uma fase pessimista para um misticismo:

Entro agora numa fase nova, e tenho jurado consagrar-me daqui em diante, todo e exclusivamente, ao trabalho de coordenação definitiva das minhas idéias filosóficas e, se tanto puder, à exposição metódica e rigorosa das mesmas.

Sua poesia revelou-se de grande valor, o mesmo, porém, não se pode afirmar sobre os textos filosóficos que escreveu. Em 1891, sentindo-se um vencido, preferiu dar cabo à própria vida, matando-se com dois tiros revólver.


O que diz a morte

“Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem”.

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das coisas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.

© Copyright 2005-2008 Redacional.com
Direitos reservados. Os textos publicados pertencem a seus autores.