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Antero
de Quental
Celso
L. Pagnan
O final
do século XIX, pode-se dizer, ficou marcado
por anseios de mudança, fosse no campo social,
político e econômico, a partir das críticas
formuladas pelas teorias marxistas ou proudhonistas,
que inspiraram a Revolução Russa em
1917, fosse no campo artístico, como as correntes
e escolas literárias que suplantaram, há
algum tempo, o romantismo, como o realismo e também
o simbolismo. Particularmente esta última foi
a base de diversos movimentos que eclodiram nas três
décadas iniciais do século XX.
Diversos
homens seguiram um campo ou outro; outros tantos se
deixaram guiar por ambos, ou seja, ficaram marcados
por ideais de transformação sócio-econômica
e artísticos. No caso da arte, ou seguiram
o naturalismo, ou o parnasianismo, ou o simbolismo
ou ainda o realismo. Caso de Antero de Quental, homem
guiado pela razão, irmã do Amor
e da Justiça, propenso a fazer de Portugal
o primeiro país comunista do mundo e a acabar
com o romantismo de Antonio Feliciano de Castilho
e seus seguidores.
Quental
nasceu em 1842, em Açores. Terminados seus
estudos primários, mudou-se para Coimbra, e
se tornaria famoso pelas lutas e brigas que travou
com o reitor da Universidade local, onde se graduou
em Direito em 1864, porém jamais exerceu a
advocacia ou qualquer profissão jurídica.
Preferiu a carreira literária e a luta política.
Aos 19 anos, em 1861, lançou seu primeiro livro,
contendo 21 sonetos, o que logo chamou a atenção
da crítica. Mas é em 1865, com Odes
Modernas, que alcança notoriedade e o coloca
de frente ao famoso poeta Antonio de Castilho.
Castilho,
em Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, escreve
um posfácio no qual ataca o grupo de jovens
de Coimbra, encabeçado pelo Príncipe
da Mocidade, conforme Eça de Queirós
chamava a Quental. O jovem poeta, em resposta, escreve
uma carta, intitulada Bom senso e bom gosto.
Está formada uma polêmica que se tornaria
conhecida como a Questão Coimbrã.
No ano
seguinte, vai a Paris tomar contato com movimentos
sociais e trabalhistas. Lá, arruma emprego
de tipógrafo e aprofunda seus estudos a respeito
das teorias de Karl Marx e Proudhon. Ao retornar a
Portugal, funda a Associação Internacional
dos Trabalhadores. Parte, em 1869, aos EUA em
busca de novas experiências para fundamentar
seus ideais socialistas.
Antero
de Quental, juntamente com Eça
de Queirós, Oliveira Martins, Teófilo
Braga, entre outros, promove, em maio de 1871, Conferências
sobre temática variada, envolvendo literatura,
filosofia, economia, no Casino de Lisboa. O governo
manda, em 26 de Junho, encerrar as Conferências,
alegando que constituem uma ofensa à religião
e às instituições do Estado.
Em 1874,
Quental adoece o que o faz rever alguns valores, entre
eles a existência de Deus. Aproxima-se da metafísica.
O pessimismo schopenhaueriano e o Nirvana budista
apascentam seu espírito:
Já
sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração
(Transcendentalismo)
Quental
escreveu quatro obras poéticas:
Sonetos
Odes Modernas
Primaveras românticas
Raios de Extinta Luz
Nas duas
primeiras, definem-se todas as características
de seu gênio. Em Odes Modernas, ataca
a classe vampirizante, usando uma expressão
do crítico português Fidelino de Figueiredo,
a classe corruptora de toda sociedade moderna: a burguesia,
que, engajada nos ideais da Liberté, egalité
e fraternité, chegou ao poder com ajuda
popular, mas esqueceu-se dessa ajuda. O poeta português
participava de tal visão e levantou bandeira
pela revolução socialista:
Ah! Via
dolorosa!
Onde uma lei terrível nos dominas!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para luz do dia!
Critica
ainda o clericalismo e os dogmas religiosos; apesar
de algum misticismo, revela-se ateu e anarquista.
Empresta às Odes Modernas toda uma filosofia
que ele sempre desejou compilar em prosa, mas não
o fez. Em À história, por
exemplo, há uma síntese da trajetória
humana e um questionamento do porvir do destino do
homem:
As águias
do rochedo, e a flor, e os ramos,
E a noite escura, e as luzes da Alvorada,
Perguntam que destinos nos consomem...
E os astros dizem onde via o homem?
Nos Sonetos,
revela grande qualidade e fulguração
poética. Seus sonetos são uns dos mais
perfeitos da língua portuguesa, comparáveis
aos de Camões e de Bocage, na expressão
e no conteúdo. Utilizou-se do verso decassílabo
com grande maestria, e fugiu totalmente à temática
comum e banal; apesar de alguns abordarem o amor platônico,
procurou discutir a existência ou não
de Deus e questões de ordem social e política.
Foram escritos entre 1860 e 884, totalizando 109.
Em 1874,
adoece e vê a morte aproximar-se. Sua poesia
retrata o desalento de viver. Por isso mesmo, passa
a lê com mais freqüência Arthur Shopenhauer,
cuja filosofia parte do princípio de que a
vida é ação, sinônimo da
vontade. Sem vontade não pode haver vida, para
a qual é necessário esforço.
Esforço é dor. Dor é sofrimento.
Aniquilando-se a vontade, aniquila-se a dor e o sofrimento.
No Elogio da Morte, o poeta chega à
seguinte conclusão:
Talvez
seja pecado procurar-te,
Mas não sonhar contigo, adorar-te,
Não-ser, que és os Ser único,
absoluto.
Em outro
poema afirma: Só males são reais,
só dor existe.
Às
vezes, chega a comparar sua vida à de Cristo:
Na capela,
perdida entre a folhagem,
O Cristo lá no fundo agonizava.
Oh! Como inteiramente se casava
Com minha dor a dor daquela imagem.
Em 1886
são publicados os Sonetos Completos,
coligidos e prefaciados por Oliveira Martins. Antero
evolui agora de mais uma fase pessimista para um misticismo:
Entro
agora numa fase nova, e tenho jurado consagrar-me
daqui em diante, todo e exclusivamente, ao trabalho
de coordenação definitiva das minhas
idéias filosóficas e, se tanto puder,
à exposição metódica e
rigorosa das mesmas.
Sua poesia
revelou-se de grande valor, o mesmo, porém,
não se pode afirmar sobre os textos filosóficos
que escreveu. Em 1891, sentindo-se um vencido, preferiu
dar cabo à própria vida, matando-se
com dois tiros revólver.
O que diz a morte
Deixai-os
vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...
Em mim,
os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem.
Assim
a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das coisas invisíveis, muda e fria,
É,
na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
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