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Macunaíma - um herói em formação

Celso L. Pagnan

Mário de Andrade tomou contato com as vanguardas européias por meio da revista L'esprit nouveau. Estudou-as e, do contato com Oswald de Andrade, que conhecera os movimentos in loco, foi construindo o que viria a ser o modernismo brasileiro.

Em 1920, com Paulicéia desvairada, deu mostras sobre como entendia a modernidade literária, sobretudo no famoso "Prefácio interessantíssimo", no qual assina sua adesão e gosto por aqueles movimentos, mas não por completo, pois procura dar caráter nacional a esse modernismo, por meio de estudos sobre a cultura brasileira, leia-se indígena, negra e européia, ao mesmo tempo.

A união dos Andrades, juntamente com outros jovens artistas e intelectuais (Plínio Salgado, Guilherme de Almeida, Raul Bopp etc.) e já não tão joves, como Graça Aranha, resultou na idealização e realização da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal em São Paulo, de 11 a 18 de fevereiro de 1922.

Tal Semana anunciou o período modernista de nossas letras e a ruptura com os parnasianos e sua preocupação em tematizar as belezas do mundo helênico. A partir dela, grupos artísticos se organizaram visando à afirmação do modernismo consoante os preceitos da nacionalidade. Entre esses grupos, chamamos a atenção para o liderado por Oswald de Andrade e Raul Bopp, chamado de Antropofágico, por seu teor deglutidor e aglutinador das variadas fontes culturais que colaboraram para a formação da nacionalidade brasileira.

Mário de Andrade, ainda que a contragosto, se uniu a este grupo por proximidade estética e ideológica. Porém, independente de o grupo ter se constituído, Mário de Andrade com seu Macunaíma deu a melhor expressão do que representava o ideário antropofágico. Escrito em 1926 e publicado em 1928, tinha como subtítulo "o herói sem nenhum caráter", isto é, sem definição, sem a priori.

O livro tem como personagem principal exatamente o Macunaíma, cuja origem é narrada logo no início do livro. Nasceu pretinho e feio, depois, já adulto, toma banho em uma poça mágica e fica branco. Preguiçoso, o herói ficou os seis primeiros anos sem falar. Quando abriu a boca, proferiu somente: "Ah, que peguiça". Egoísta e trapaceiro, visava tão somente sua própria satisfação. Era esperto e inteligente, conseguia se safar das mais difíceis situações. Mário de Andrade quis, com o personagem, revelar uma feição do brasileiro, cujo processo de formação não se completara.

Para reforçar o processo, Macunaíma nasce negro, filho de uma índia, tem um irmão índio, Maanape, e outro negro, Jiguê. Ao tomar banho, torna-se branco. Além disso, embora nasça na região amazônica, viaja pelo Brasil em lances mágicos. Ora está no norte, ora no Sul. De qualquer modo, como ponto central, está sua ida a São Paulo na tentativa de recuperar a Muiraquitã, que fora roubada pelo gigante comedor de gente. São esses aspectos todos que explicam a classificação do livro como pertencente ao pensamento antropofágico, isto é, à mistura cultural e racial que colaborou decisivamente para a constituição do brasileiro.

Quanto ao gênero, Macunaíma pode ser classificado como rapsódia, por se tratar de um agrupamento de lendas, narrativas populares e fatos históricos. Apesar disso, o autor o classificou como romance à maneira do Palmerin d'Inglaterra. Há ainda a possibilidade de ver no livro traços de epopéia, como nas Chansos de Roland. Enfim, a classificação é tão variada como o próprio personagem principal.

O objetivo último era, pois, o de mostrar na forma e no conteúdo como o brasileiro ainda não tinha completado sua formação, seu caráter, no sentido de aquilo que o caracteriza, que o identifica como ser.

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