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Códigos
e Segredos
Celso
L. Pagnan
Há livros que
causam impacto pela novidade da forma, como Grande
sertão: veredas ou Ulisses, de Guimarães
Rosa e James Joyce, respectivamente. Há outros
que causam impacto pela natureza da perspectiva apresentada,
como é o caso de Os sertões,
de Euclides da Cunha; por fim, há outros cujo
impacto é produzido pela polêmica e pela
forma, senão inovadora, ao menos eficiente
para aquilo que se propõe: é o caso
de O código da Vinci, de Dan
Brown, cuja venda, no mundo, já superou
a casa dos 20 milhões de exemplares. O número
chega a ser uma hipérbole no mercado editorial,
especialmente brasileiro, em que livros têm
tiragem de 1000 ou 2000 exemplares. O Farol no
pampa, por exemplo, graças ao sucesso de
A casa das sete mulheres, ambos de Letícia,
teve tiragem inicial de 10 mil exemplares.
O caso talvez se explique
por alguns fatores: polêmica religiosa, sensação
que se causa no leitor que pensa estar aprendendo
algo enquanto se diverte, forma fácil, ou seja,
o livro é escrito em uma forma eficiente, com
capítulos curtos e seqüência ágil
e bem concatenada, num pragmatismo interessante. Não
é raro ouvir alguém testemunhar que
leu o livro de mais de 400 páginas de uma só
vez ou em menos de dois dias.
O nome da Rosa,
de Umberto Eco, por exemplo, que também vendeu
milhares de exemplares, foi adaptado para o cinema,
tem mais de 400 páginas, discute conceitos
religiosos, é baseado em crime, mistério,
códigos secretos, não teve tanto êxito
entre os compradores do livro. Digo compradores, porque
o livro também se tornou cult ao ser lançado.
Não ter o livro era crime entre os leitores
da moda. O problema começava logo nas primeiras
páginas, quando se deparava com citações
em latim e conceitos nem sempre fáceis de digerir,
como a concepção religiosa medieval
e a visão aristotélica da comédia.
O comum entre os dois
livros é o que chama a atenção
das pessoas em geral, posto que todos temos um gosto
por conspirações, segredos, assuntos
sigilosos. Mesmo nas discussões ou assuntos
comezinhos, prosaicos, basta alguém dizer "vou
lhe contar algo, mas é segredo", para
que os ouvidos fiquem mais atentos. Imagine-se em
assuntos que tratem de aspectos cruciais para a humanidade,
como a questão religiosa, as questões
da fé.
Mesmo quem não
tenha lido O código da Vinci, deve saber
que o conceito básico em que se assenta a narrativa
é uma conspiração que teria sido
organizada pelos cristãos ortodoxos, os seguidores
de São Paulo ou São Pedro, mais tarde
ratificada por Constantino, para destruir a verdadeira
história de Cristo e Maria Madalena. O assunto
do livro não é novidade, sobre o qual
diversos outros livros foram escritos ou filmes produzidos.
O mais famoso é A última tentação
de Cristo, proibido em vários países
e em diversas cidades brasileiras à época
do lançamento. Interessante que o livro de
Dan Brown, até onde eu saiba não sofreu
campanha do tipo; talvez porque quando se fale de
livros tem-se o conceito de que qualquer leitura é
mais edificante que assistir a filmes ou televisão...
Um ponto importante na
publicação do livro é o aparecimento
de diversos outros que procuraram abordar o livro
ficcional, sob o título de Quebrando...,
Revelando..., Decodificando o Código da Vinci.
Nada mais comum. Ainda que alguém possa criticar
o oportunismo comercial, o fato é banal no
universo da crítica. Por exemplo, é
fácil encontrarmos centenas de livros explicativos
sobre a obra de Machado de Assis, ao passo que se
alguém quiser textos críticos sobre
a obra ficcional do poeta Menotti del Picchia vai
ter dificuldade para encontrar, em que pese o valor
de sua poesia.
Mas gostaria de tratar
um pouco mais de um desses livros em particular, Os
segredos do Código, de Dan Burstein, publicado
pela mesma editora dos livros da Dan Brown, a Sextante.
Trata-se de uma coletânea de artigos, resenhas,
entrevistas, trechos de livros escritos por pesquisadores
dos Manuscritos do Mar Morto, dos textos gnósticos,
apócrifos, rejeitados exatamente por aquela
conspiração no início da cristandade.
Evidentemente, diversos desses textos corroboram a
história de que Cristo teria ou fugido da Cruz
ou se casado com Maria Madalena, ou as duas coisas,
embasados mais em suposições e leituras
apressadas do que em fatos. Há outras interpretações,
segundo as quais, Jesus Cristo teria sido crucificado,
conforme reza a tradição, mas, pasmem,
teria tomado uma droga qualquer para, após
sofrer tudo o que se sabe, forjar que estava morto
e, três dias depois, aparecer vivo e sem feridas.
Seria bom se é essa tal droga estivesse à
venda...
De todos os textos, a
entrevista feita com James Robinson, professor de
religião e o editor primeiro dos evangelhos
de Nag Hammadi, os apócrifos, pode ser vista
como contraponto à teoria da conspiração
a tudo quanto se afirma a respeito da vida humana
de Cristo. Quero destacar três trechos da entrevista.
Sobre O código da Vinci, diz:
"Esse
livro tem tido um sucesso do tipo sensacionalista,
o que muito preocupa os estudiosos que, como eu, procuram
se ater aos fatos. (...) É difícil para
o público leigo distinguir onde começa
um e termina o outro. Portanto, estritamente desse
ponto de vista, ele é muito desorientador".
O que não o invalida
como ficção.
Adiante:
"Os
autores desses códices (evangelhos apócrifos)
tentavam influenciar o que poderíamos chamar
de a ala esquerda do cristianismo".
Ou seja, tinham concepção
diferente do cristianismo, dos ensinamentos cristãos.
Como hoje em dia, não existe uma única
igreja cristã. O problema exposto é,
segundo os que defendem a teoria da conspiração,
que a visão vencedora seria a errônea
posto que acobertou uma outra visão. Trata-se
de um fenômeno interessante e bem próprio
de nossa época em que se procuram rever velhos
conceitos, antigos hábitos, que, aliás,
no Brasil, o paradigma é justamente Os sertões,
citado no início deste texto. Do mesmo modo
que se condena o totalitarismo, a falta de liberdade,
condenam-se os Evangelhos canônicos justamente
por terem sido os vencedores naqueles anos iniciais.
Quero crer que se tivessem vencido a batalha das idéias,
os evangelhos gnósticos seriam hoje alvo de
contestação pela descoberta dos evangelhos
de Marcos, Lucas, Mateus e João... Idéias,
conceitos não podem simplesmente estar errados
porque são hegemônicas. Trata-se de um
pragmatismo falacioso.
Finalizando a entrevista,
diz o professor James Robinson:
"As pessoas não
devem confundir o que se sabe efetivamente com o que
só pode ser produto de especulação.
Mesmo com esses textos em mãos, não
se deve atribuir a Maria Madalena mais do que se sabe
sobre ela tal como relatado no Novo Testamento. A
partir daí, começamos a cair no reino
do que se pode chamar de 'pensamento otimista', e
em relação a isso nós, historiadores,
temos de ser cautelosos".
Apesar disso, algo deve
ser exaltado: a revalorização da mulher
no cenário da Igreja Cristã. Para quem
lê atentamente os Evangelhos sabe que Cristo
apoiava as mulheres sempre, afinal sua mensagem era
de igualdade entre todos. Sem dúvida, a Igreja
Católica, apoiada no mito da criação
adâmica, não deu ouvidos a isso e permaneceu
fiel ao conceito de que a mulher é importante,
mas inferior na escala da evangelização.
Em O código da Vinci, por meio de Sofia e Maria
Madalena, temos uma importante revalorização
da mulher, e do lado feminino da divindade. É
como diria Pepeu Gomes, "se Deus é homem
e menina..."
Considerando isso tudo,
qual o valor do livro O código da Vinci?
Ele não apresenta uma forma inovadora, suas
idéias não pertencem ao próprio
autor, os conceitos são contestáveis...
Considerando que essas perguntas poderiam ser feitas
a respeito da obra de Paulo Coelho, alguém
diria logo: "não tem valor nenhum, por
isso vende muito". Ora, taxar um livro de ruim
apenas porque vende é falácia, bem como
a equação contrária. Sem dúvida
que Dan Brown foi hábil e seu livro é
bom, talvez excelente, mas como ficção
sem grande valor artístico.
Portanto, eis o valor
do livro: estamos diante de um bom romance, de
um bom e eficiente texto ficcional, capaz de prender
a atenção de leitores contumazes ou
bissextos.
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