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Códigos e segredos

Manuel Bandeira

Memórias de um sargento de milícias

Macunaíma

A cidade e as serras

Memorial do Convento

Sonetos, de Bocage

Antero de Quental

Dossiê Adão e Eva

 

 
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Códigos e Segredos

Celso L. Pagnan



Há livros que causam impacto pela novidade da forma, como Grande sertão: veredas ou Ulisses, de Guimarães Rosa e James Joyce, respectivamente. Há outros que causam impacto pela natureza da perspectiva apresentada, como é o caso de Os sertões, de Euclides da Cunha; por fim, há outros cujo impacto é produzido pela polêmica e pela forma, senão inovadora, ao menos eficiente para aquilo que se propõe: é o caso de O código da Vinci, de Dan Brown, cuja venda, no mundo, já superou a casa dos 20 milhões de exemplares. O número chega a ser uma hipérbole no mercado editorial, especialmente brasileiro, em que livros têm tiragem de 1000 ou 2000 exemplares. O Farol no pampa, por exemplo, graças ao sucesso de A casa das sete mulheres, ambos de Letícia, teve tiragem inicial de 10 mil exemplares.

O caso talvez se explique por alguns fatores: polêmica religiosa, sensação que se causa no leitor que pensa estar aprendendo algo enquanto se diverte, forma fácil, ou seja, o livro é escrito em uma forma eficiente, com capítulos curtos e seqüência ágil e bem concatenada, num pragmatismo interessante. Não é raro ouvir alguém testemunhar que leu o livro de mais de 400 páginas de uma só vez ou em menos de dois dias.

O nome da Rosa, de Umberto Eco, por exemplo, que também vendeu milhares de exemplares, foi adaptado para o cinema, tem mais de 400 páginas, discute conceitos religiosos, é baseado em crime, mistério, códigos secretos, não teve tanto êxito entre os compradores do livro. Digo compradores, porque o livro também se tornou cult ao ser lançado. Não ter o livro era crime entre os leitores da moda. O problema começava logo nas primeiras páginas, quando se deparava com citações em latim e conceitos nem sempre fáceis de digerir, como a concepção religiosa medieval e a visão aristotélica da comédia.

O comum entre os dois livros é o que chama a atenção das pessoas em geral, posto que todos temos um gosto por conspirações, segredos, assuntos sigilosos. Mesmo nas discussões ou assuntos comezinhos, prosaicos, basta alguém dizer "vou lhe contar algo, mas é segredo", para que os ouvidos fiquem mais atentos. Imagine-se em assuntos que tratem de aspectos cruciais para a humanidade, como a questão religiosa, as questões da fé.

Mesmo quem não tenha lido O código da Vinci, deve saber que o conceito básico em que se assenta a narrativa é uma conspiração que teria sido organizada pelos cristãos ortodoxos, os seguidores de São Paulo ou São Pedro, mais tarde ratificada por Constantino, para destruir a verdadeira história de Cristo e Maria Madalena. O assunto do livro não é novidade, sobre o qual diversos outros livros foram escritos ou filmes produzidos. O mais famoso é A última tentação de Cristo, proibido em vários países e em diversas cidades brasileiras à época do lançamento. Interessante que o livro de Dan Brown, até onde eu saiba não sofreu campanha do tipo; talvez porque quando se fale de livros tem-se o conceito de que qualquer leitura é mais edificante que assistir a filmes ou televisão...

Um ponto importante na publicação do livro é o aparecimento de diversos outros que procuraram abordar o livro ficcional, sob o título de Quebrando..., Revelando..., Decodificando o Código da Vinci. Nada mais comum. Ainda que alguém possa criticar o oportunismo comercial, o fato é banal no universo da crítica. Por exemplo, é fácil encontrarmos centenas de livros explicativos sobre a obra de Machado de Assis, ao passo que se alguém quiser textos críticos sobre a obra ficcional do poeta Menotti del Picchia vai ter dificuldade para encontrar, em que pese o valor de sua poesia.

Mas gostaria de tratar um pouco mais de um desses livros em particular, Os segredos do Código, de Dan Burstein, publicado pela mesma editora dos livros da Dan Brown, a Sextante. Trata-se de uma coletânea de artigos, resenhas, entrevistas, trechos de livros escritos por pesquisadores dos Manuscritos do Mar Morto, dos textos gnósticos, apócrifos, rejeitados exatamente por aquela conspiração no início da cristandade. Evidentemente, diversos desses textos corroboram a história de que Cristo teria ou fugido da Cruz ou se casado com Maria Madalena, ou as duas coisas, embasados mais em suposições e leituras apressadas do que em fatos. Há outras interpretações, segundo as quais, Jesus Cristo teria sido crucificado, conforme reza a tradição, mas, pasmem, teria tomado uma droga qualquer para, após sofrer tudo o que se sabe, forjar que estava morto e, três dias depois, aparecer vivo e sem feridas. Seria bom se é essa tal droga estivesse à venda...

De todos os textos, a entrevista feita com James Robinson, professor de religião e o editor primeiro dos evangelhos de Nag Hammadi, os apócrifos, pode ser vista como contraponto à teoria da conspiração a tudo quanto se afirma a respeito da vida humana de Cristo. Quero destacar três trechos da entrevista. Sobre O código da Vinci, diz:

"Esse livro tem tido um sucesso do tipo sensacionalista, o que muito preocupa os estudiosos que, como eu, procuram se ater aos fatos. (...) É difícil para o público leigo distinguir onde começa um e termina o outro. Portanto, estritamente desse ponto de vista, ele é muito desorientador".

O que não o invalida como ficção.

Adiante:

"Os autores desses códices (evangelhos apócrifos) tentavam influenciar o que poderíamos chamar de a ala esquerda do cristianismo".

Ou seja, tinham concepção diferente do cristianismo, dos ensinamentos cristãos. Como hoje em dia, não existe uma única igreja cristã. O problema exposto é, segundo os que defendem a teoria da conspiração, que a visão vencedora seria a errônea posto que acobertou uma outra visão. Trata-se de um fenômeno interessante e bem próprio de nossa época em que se procuram rever velhos conceitos, antigos hábitos, que, aliás, no Brasil, o paradigma é justamente Os sertões, citado no início deste texto. Do mesmo modo que se condena o totalitarismo, a falta de liberdade, condenam-se os Evangelhos canônicos justamente por terem sido os vencedores naqueles anos iniciais. Quero crer que se tivessem vencido a batalha das idéias, os evangelhos gnósticos seriam hoje alvo de contestação pela descoberta dos evangelhos de Marcos, Lucas, Mateus e João... Idéias, conceitos não podem simplesmente estar errados porque são hegemônicas. Trata-se de um pragmatismo falacioso.

Finalizando a entrevista, diz o professor James Robinson:

"As pessoas não devem confundir o que se sabe efetivamente com o que só pode ser produto de especulação. Mesmo com esses textos em mãos, não se deve atribuir a Maria Madalena mais do que se sabe sobre ela tal como relatado no Novo Testamento. A partir daí, começamos a cair no reino do que se pode chamar de 'pensamento otimista', e em relação a isso nós, historiadores, temos de ser cautelosos".

Apesar disso, algo deve ser exaltado: a revalorização da mulher no cenário da Igreja Cristã. Para quem lê atentamente os Evangelhos sabe que Cristo apoiava as mulheres sempre, afinal sua mensagem era de igualdade entre todos. Sem dúvida, a Igreja Católica, apoiada no mito da criação adâmica, não deu ouvidos a isso e permaneceu fiel ao conceito de que a mulher é importante, mas inferior na escala da evangelização. Em O código da Vinci, por meio de Sofia e Maria Madalena, temos uma importante revalorização da mulher, e do lado feminino da divindade. É como diria Pepeu Gomes, "se Deus é homem e menina..."

Considerando isso tudo, qual o valor do livro O código da Vinci? Ele não apresenta uma forma inovadora, suas idéias não pertencem ao próprio autor, os conceitos são contestáveis... Considerando que essas perguntas poderiam ser feitas a respeito da obra de Paulo Coelho, alguém diria logo: "não tem valor nenhum, por isso vende muito". Ora, taxar um livro de ruim apenas porque vende é falácia, bem como a equação contrária. Sem dúvida que Dan Brown foi hábil e seu livro é bom, talvez excelente, mas como ficção sem grande valor artístico.

Portanto, eis o valor do livro: estamos diante de um bom romance, de um bom e eficiente texto ficcional, capaz de prender a atenção de leitores contumazes ou bissextos.

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