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Artigos e resenhas

 

Códigos e segredos

Manuel Bandeira

Memórias de um sargento de milícias

Macunaíma

A cidade e as serras

Memorial do Convento

Sonetos, de Bocage

Antero de Quental

Dossiê Adão e Eva

 
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De volta ao campo

Celso L. Pagnan

A cidade e as serras, de Eça de Queirós

Eça de Queirós (1845-1900) procurou, ao longo de sua vida literária, que se inicia em 1875 com o livro O Crime do Pe. Amaro (adaptado para o cinema), usar a literatura como meio de criticar os excessos e os desvios da sociedade burguesa, e, em especial, da portuguesa. Sua atitude crítica não se resumia puramente ao ato da escrita, pois participava de debates sobre os rumos da cultura e da sociedade de sua época. E, como tal, esteve presente nas famosas Conferências do Cassino, em Coimbra, organizadas pelo poeta Antero de Quental em 1871, tendo Eça de Queirós proferido a quarta dessas conferências: "A nova literatura: o Realismo como nova expressão de arte".

Em seus romances, o tom corrente é sempre o pessimismo com relação à sociedade, vista em estado degradado pelos interesses individuais, burgueses. A ironia, o sarcasmo e o desdém do narrador ou dos personagens-chave dos romances funcionam como estratégia de Eça na composição de seus livros. O alvo do empenho do escritor - a decadência da vida burguesa - corresponde, em boa parte, à crítica do jovem socialista, que cedo se instalara em Coimbra para estudar direito.

No entanto, em seu último trabalho, publicado postumamente, A cidade e as serras (1901), o escritor parece enxergar uma espécie de redenção para tal sociedade decadente. Para tanto, Eça se valeu de um tipo caro de romance à escola realista-naturalista, de que tomou parte ativamente: o romance de tese. O autor procura defender a superioridade da vida rural em detrimento da urbana, não, evidentemente, do ponto de vista das facilidades tecnológicas, mas do ponto de vista das relações humanas.

O texto é uma ampliação de um conto intitulado "Civilização" (1892). Conta-se a história de Jacinto, neto de D. Galião, amigo íntimo do rei D. Miguel, que, com a queda deste em 1834, muda-se para Paris onde adquire um palacete na Av. Campos Elíseos, 202.

Órfão de pai, Jacinto nasceu e cresceu em Paris, ficando desde cedo maravilhado com a cidade e com todas as invenções e tecnologia da época (é o período conhecido como Belle Époque). Formulou então uma teoria, segundo a qual, para um indivíduo tornar-se feliz deveria ser "superiormente civilizado". Assim, reúne em seu palacete tudo o que a civilização industrial produzira até então: elevadores, telefones, engenhocas as mais diversas, além de uma biblioteca de mais de 30 mil volumes.
A história é narrada por José Fernandes, melhor amigo de Jacinto, que viera de uma propriedade rural localizada em Guiães, Portugal, e fora a Paris estudar.

Nos jantares e reuniões, Fernandes percebe quão falsa é a sociedade urbana. Acaba, contudo, se envolvendo amorosamente com Madame Colombe, uma prostituta de luxo, por assim dizer; ao ser abandonado por ela, encontra mais motivos para olhar com descrédito essa sociedade.

Quanto ao maquinário instalado no palacete de Jacinto, nada funcionava adequadamente. Os livros são, na verdade, reduzidos a objetos de ostentação, uma vez que o "Príncipe da Grã Ventura" (alcunha pela qual o narrador se refere a Jacinto) não os lê, sintoma entre outros do desânimo e descrença na civilização que abraçara com tanto ímpeto. Atira-se então à leitura do livro bíblico Eclesiastes, segundo o qual "tudo é vaidade", e à filosofia pessimista de Schopenhauer, para quem a vida é um pêndulo que oscila entre o tédio e o sofrimento.

Em um passeio que fazem os dois amigos pelos arredores de Paris, na colina da Basílica do Sacré-Coeur, José diz ao amigo: "o homem pensa que tem na cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria", e Jacinto concorda: "sim, é talvez tudo uma ilusão... e a cidade a maior ilusão!"

Por motivos familiares, Jacinto muda-se para sua propriedade rural em Tormes, vizinha à de José Fernandes; antes, envia para lá uma série de aparelhos e livros, que, no entanto, se perdem no meio do caminho. Com isto, Jacinto parece ficar da civilização possibilitando-lhe um contato mais íntimo com a natureza, com o mundo rústico, o que o leva a ter uma nova perspectiva sobre a vida.

Do mesmo modo que idealizara a vida urbana, passa a idealizar a vida campesina. Aos poucos, porém, percebe que o ideal é unir o que a sociedade urbana tem de melhor e útil, como por exemplo o telefone, com a simplicidade dos camponeses.
Casa-se com Joaninha, uma prima de Zé Fernandes, e tem com ela dois filhos, Jacinto e Teresa. Sua vida atinge o equilíbrio, sem idealizações exageradas.

Um registro importante a se fazer é que a tese defendida no romance remete o leitor ao Arcadismo (século XVIII), época exatamente do início da Idade Contemporânea, com as Revoluções Industrial e Francesa.

Nesse período, os poetas propunham a fuga da cidade, fugure urbem, e idealizam a vida bucólica, tendo frequentemente a poesia pastoral como tema e transformado o campo numa espécie de território perdido evocado em versos como os do nosso Cláudio Manuel da Costa:

Quem deixa o trato pastoril amado
Pela ingrata civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz não tem provado!

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