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Um Momento para a morte

Celso Leopoldo Pagnan

Momento num café
Manuel Bandeira

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

O poema de Manuel Bandeira principia por uma espécie de fórmula de abertura, apontada por Davi Arrigucci Jr.[1], ao iniciar-se com uma oração subordinada temporal, o que sugere o aspecto narrativo do poema. Diferente, entretanto, de outros poemas, como Consoada e Profundamente, Momento num Café é escrito em 3ª pessoa, sugerindo não uma vivência própria do eu-lírico, mas observações de uma cena específica ocorrida em um café qualquer.

Apesar de o poema apresentar características da prosa de ficção, como a narração e a sucessão temporal, estamos diante de um poema lírico pelo fato de o mesmo ser escrito sob a égide da identificação, e, como bem apontou Otto Maria Carpeaux, esta “é o segredo da poesia lírica”[2].

Esta forma épico-lírica poderia levar a crer que se trata de uma balada, mas, segundo Käte Hamburger, tal composição deve ser feita em 1ª pessoa[3]. De qualquer modo, podemos classificá-lo como um poema pictórico por apresentar imagens e elementos prosaicos de composição mesclado-os à enunciação lírica. Além de que, o poema nasce a partir das observações de um eu-lírico oculto e também de um sujeito solitário que está na segunda estrofe. Tais observações imobilizam a ação e a transformam em reflexão interior.

O poema, portanto, prende-se à visão da lírica moderna, ao trazer para o seu âmbito o mundo prosaico, prática que se inicia com Baudelaire e também com Sainte-Beuve e Victor Hugo, que trazem para o lírico a multidão[4]. Há então uma visão paradoxal entre o mundo elevado e o baixo, entre o sublime e o prosaico. E o poema reflete diferentes atitudes em relação à morte: uma que a encara de modo cotidiano e outra que busca um sentido geral para ela. No título, Momento num Café, o vocábulo momento pode significar uma situação, ou um espaço pequeno, mas indeterminado, de tempo, ou ainda um impulso, uma quantidade qualquer de movimento[5].

Transpondo essas definições para o universo do poema, vemos que de fato se configura uma situação (um cortejo fúnebre que ora passa próximo a um café) em uma indeterminação temporal e também um impulso, e por isto mesmo, irrefletido, maquinal dos “homens que se achavam no café”, executando um ato ritualístico. O adjunto adverbial num café, depois no café, de início nada revela sobre o assunto do poema. Somente após a leitura global é que se toma o conhecimento de que se trata de um cortejo fúnebre, por conseguinte sabe-se que o poema tematiza a morte. Embora o tema, oculto pelo título, seja transcendente, o espaço, em que se desenvolve a ação é totalmente cotidiano, mundano. Além disso, há uma mescla de pessoas sobre as quais nada sabemos, apenas as vemos pela mesma atitude tomada: a de saudar o morto de modo distraído. No meio destes, o sujeito lírico oculto separa um com quem irá identificar-se e desloca-o daquele universo comum onde todos se encontravam, o que permite a nós, leitores, conhecer a reflexão que ele fará sobre a relação vida/morte.

Voltando à análise dos artigos, indefinido no título, definido no corpo do poema, assim como momento denota um vazio, uma indeterminação temporal, o artigo indefinido se ajusta adequadamente ao substantivo, criando um paralelismo entre tempo (momento) e espaço (num café). No corpo do poema, o artigo definido, por sua vez, coloca o sujeito lírico e o sujeito solitário no mesmo plano espacial, no mesmo universo banal e cotidiano do café. E este artigo aparece justamente na 1ª estrofe, pois à 2ª é reservada a reflexão; exclui-se, pois, o espaço exterior.

O poema é composto por duas estrofes assimétricas, diferentes quanto à quantidade de versos e também quanto à métrica. Apesar de os versos da primeira serem assimétricos (variam de cinco a onze sílabas poéticas), seguem, de um modo geral, o esquema rítmico tradicional, mimetizando o bem estar do senso comum, a relativa regularidade do pensamento comum. Na 2ª estrofe, os versos oito e dez, livre, reforçam a diferença das duas visões de mundo que aparecem no poema. No 8º, têm-se a introdução da 2ª estrofe e a gestualização paradoxal que levará o sujeito solitário, no 10º, à reflexão da relação vida/morte. Tal paradoxo reforça-se ainda pela adversativa no entanto, que se segue à introdução daquele que divergirá do pensamento comum: um no entanto, e pela pontuação, uma vez que há apenas dois pontos: um que encerra a 1ª estrofe e outro a 2ª e o próprio poema.

Um outro recurso utilizado para diferenciar a dupla visão presente no poema é o vocabular. O vocábulo vida, por exemplo, aparece nas duas estrofes. Na primeira, encontra-se no final dos versos 5, 6 e 7. Esta construção anafórica parece sugerir a mecanização, a banalização da morte, encarada maquinal e distraidamente, na vida moderna. Do ponto de vista sintático, tal vocábulo é empregado como complemento nominal dos predicativos cujo sujeito é o vocábulo todos, ou seja, os homens. Esta construção frasal reforça a passividade dos homens em relação à vida. Isto é, o senso comum aceita e adere à rotina da vida, que desemboca inevitavelmente na morte. Esta nada mais é que uma conseqüência daquela. E com a morte do corpo a alma pode enfim se libertar.

Por outro lado, nas duas vezes que vida é empregado na segunda estrofe, ele o é como sujeito das frases, sendo, portando, objeto de reflexão do homem solitário, o que o tira do pensamento comum e o faz aderir a uma visão paradoxal da vida. Enquanto os demais vêem a morte como libertação da alma, o solitário encara-a como uma libertação do corpo. Ou seja, enquanto todos os demais tiveram uma atitude mecânica, o solitário, apesar de fazer parte do mesmo universo, num primeiro momento, transcende a mecanicidade do senso comum e se descobre num momento de revelação, “num gesto largo e demorado”.

Outro vocábulo importante para a compreensão do poema é o verbo saudar, o qual também aparece nas duas estrofes. Embora utilizado no mesmo tempo verbal, tal vocábulo assume significados diferentes. Na primeira estrofe o verbo está atrelado ao movimento, ao gesto de tirar o chapéu, ou seja, os homens tiram o chapéu indicando com isto a saudação, o seu adeus àquele que seria enterrado. Ato maquinal, ritualístico, sem qualquer tipo de identificação. Já na segunda estrofe, o homem solitário, além de olhar para o morto também o saúda. São duas ações que se sucedem. Isto é reforçado pela aditiva e com a qual se inicia o 12º verso: “e saudava a matéria que passava”. É como se os demais apenas cumprimentassem o morto, enquanto que o outro o felicitava pela “conquista”.

Ressalte-se ainda que o cadáver é morto para o senso comum, e matéria para o solitário. A revelação que este tem faz que ele veja a morte como uma libertação da vida, uma vez que “é uma agitação feroz e sem finalidade”, estando a matéria livre da alma extinta”, livre da “vida besta”, o que contraria o pensamento comum, baseado na visão cristã da vida. Revela-se aqui a identificação do poeta com o solitário e deste com o morto. Vemos esta concepção materialista da vida em outros poemas, como, por exemplo, em Boi morto, onde o poeta diz que a alma fica e fica atônita, e o corpo segue a correnteza das águas com o boi morto[6]. Um outro exemplo é A morte absoluta. Este materialismo, segundo Gilda de Melo e Souza e Antonio Candido, faz Bandeira “aderir à realidade terrena, limitada dos seres e das coisas, sem precisar explicá-las para além da sua fronteira, mas denotando um tal fervor que bane qualquer vulgaridade e chega, paradoxalmente, a criar uma espécie de transcendência.”[7] É claro que não se trata de uma transcendência religiosa, mas uma espécie de preparação para a morte por que passou o poeta doente.

O uso do vocábulo esquife também corrobora a idéia de vida agitada, pois esquife pode tanto significar caixão para defunto quanto uma embarcação miúda, sugerindo assim um paralelismo entre a agitação da vida e a agitação que tal tipo de embarcação deve sofrer em alto mar.

Vemos, portanto, que o poeta constrói o poema de tal modo que as duas visões da relação vida/morte se separam antiteticamente. E ele o faz através ainda de um outro recurso: o gestual. Na verdade, o poema é construído tomando por base os gestos: o gesto dos homens, o gesto do solitário e o gesto do sujeito lírico oculto, que indica e revela aquele que destoaria do pensamento comum, “este sabia...”.

No caso da primeira estrofe, o gesto maquinal e distraído dos homens não atinge o sentido geral da morte E esta gestualização maquinal se reforça também pelo vocabulário: absorto, confiante. Trata-se de uma visão alegorizada e fragmentada. Somente na segunda estrofe o gesto busca atingir o sentido totalizante da morte. E é em tal estrofe que ocorre, num momento, a “revelação vital-instantânea do insondável”[8]. A prática de um lirismo universal, por parte de Bandeira, tem o sentido, segundo Carpeaux, “de transformar o romantismo, condicionado pelas particularidades psicofísicas do poeta doente, em algo de simbólico, de validade geral”.

Entretanto, somente a enunciação lírica não é suficiente para se realizar a compreensão totalizante da relação vida/morte. Faz-se necessária a recorrência à tradição épica. O solitário, ao tranqüilizar-se com a revelação, saúda a matéria que passa, e, justamente neste final os versos 12 e 13, decassílabos heróicos, remetem o poema ao sublime. E a epicidade destes dois últimos versos torna a visão paradoxal em “algo de simbólico, de validade geral”.

Bibliografia

ARRIGUCCI JR., Davi. Humildade, paixão e morte - a poesia de Manuel Bandeira. São Paulo, Cia. da Letras, 1990.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira - poesias reunidas. Rio de Janeiro, José Olympio, 1966.

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire - um lírico no auge do capitalismo. São Paulo, Brasiliense, Obras Escolhidas, vol. III, 1989.

BRAYNER, Sônia (org.). Manuel Bandeira. Col. Fortuna Crítica. Rio/Brasília, Civilização Brasileira/INL-MEC, 1980.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 5ª ed., São Paulo, Ática, 1989.

HAMBURGER, Käte. A lógica da criação literária. São Paulo, Perspectiva, 1975.

HOLANDA, Aurélio B.. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª ed., São Paulo, Nova Fronteira, 1986.


Notas

[1]“A festa interrompida”, Humildade, paixão e morte. P. 204.

[2]“Ensaio de exegese de um poema de Manuel Bandeira”. In: Sônia Brayner, Manuel Bandeira, p. 200.

[3] “As formas especiais”, A lógica da criação literária.

[4]Walter Benjamin. Charles Baudelaire - um lírico no auge do capitalismo. P. 56.

[5]Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. Todas as definições das palavras foram retiradas deste dicionário.

[6]Esse exemplo foi posto com base no ensaio “Entre destroços do presente”, Davi Arrigucci Jr., “A festa interrompida”, Humildade, paixão e morte. P. 233.

[7]Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. Prefácio de Gilda de Melo e Sousa e Antonio Candido.

[8]A definição completa de símbolo, formulada por Goethe, é a seguinte: “O verdadeiro simbolismo é aquele em que o particular é o representante do universal, não como sonho e sombra, mas como revelação vital-instantânea do insondável”, e ela foi extraída do ensaio “O simbólico em Schelling”. Rubens Rodrigues Torres Filho. Ensaios de filosofia ilustrada. P. 125.

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